terça-feira, 8 de junho de 2010


Este sol redondo
Que bate no rosto
Me molha de paz
Correndo eu dizia
Em sua ilha
No meu partido
Já sou velho amigo

Este sol redondo
De bandas passadas
Queimando alvoradas
Nos pactos-peles
Náuseas rosadas
Um segredo desdito

O sol redondo
Medonho espelho
Em fevereiro
Ao gosto de deus
Eu alta saudade
Na terra boa
Esfreguei vontades

O sol no céu
O céu meu pão
Milhares de réus
Espalhados no mel
Em rotação
Mordo faminto
O meu vulcão

O sol me lava
Escorre dizendo
Em intuição
Eu sou anuncio
De rompimento
Na tarde de outono
Do teu porão

O sol mar de tantos
A sombra de todos
Respeita meus cactos
Grudados na pele
Nos cantos do peito
Lá sobram momentos
De transição

David Cejkinski

sexta-feira, 4 de junho de 2010


Sou gavetas
Bolsos
Quartos de hoteis abandonados
Sou paisagem
Viajem
Guardado no peito como bagagem
Abandono-saida
O que sobra nos cantos?
Daquela avenida...
Sou livros relidos
Cartas enviadas, ingressos perdidos
Endereços errados
Sou estrada-maratona
Jogado na onda
De outro pais
O que sobra nos cantos?
Do homem parado....
Sou roupas usadas
Malas desfeitas
Mudanças distantes
Lisos momentos
Para limpar a boca com guarda-napo
Ai quanta dor eu deixo
E mexo no eixo da minha poesia
Ai que quanta historia eu levo
Dizendo o momento de ficar cego
Ai quanta despedida
Virando na linha a certeza da vida
Ai quanta parte eu parto
Distante ligado em fino trato
Se sou transitorio
Efemera moda
Justo neste pais largado...
Encontro maos perdidas
Roupas forradas de solidão
Satelite exato
Bares baratos
Wyski virado em meia musica
O que sobra nos cantos?
Daqueles meus olhos...
Se sou personagem
Desfilo errado
Em tempos melhores
Madeiras talhadas
Erradas besteiras
No trem moderno mas apertado
Eu preciso ir embora
Para aquele momento de adeus mortal
Mar latente a qualquer hora
Sou lebre, fera desigual
Vestindo o corpo de caminhos
Sou sozinho
Destino

O que fica nos cantos?
Desse meu mundo...
David Cejkinski

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O que move dentro de ti é seco
Áspero
Largo e de fino trato
Mas com cara de espanto
E anda
Por oceanos
Fúnebre, e aquele tanto...
Num canto dos olhos
Nessa cidade sem horizonte
Distante
Afogado de pára-quedas
Saltos perdidos na rede
Malabaristas de ansiedade
Implorando respostas na esquina
Preciso de entrega louca na estação-cantante
As 13:30; horário de almoço
Nessa cidade sem horizonte
Gavetas serenas
Sorrisos descartáveis
Moradias portáteis de horror
Preciso de sua pele dentro daquela coisa áspera
Nessa cidade sem horizonte
Movendo-se dentro de nós
Todos –os-dias-repletos-urbanos
Brandos
Facadas de espanto no horário do rush

David Cejkinski

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Vou te lembrar mais tarde
Com aquele sorriso de baunilha no rosto
As mãos amassadas de serpentinas
O rosto colado no meu
Vou te lembrar talvez daquele nosso jeito de andar no campo
Tomar sol aos sábados
Vou te lembrar das minhas mãos coçando
Dos meus panos indianos cobrindo o corpo
Em tarde de julho
Com frio no rosto
E você beijando...
Vou marcar um encontro, lhe dizer o futuro
Parar no semáforo, olhar nos teus olhos
Acelar
Talvez a felicidade morasse ali...

Vou lhe apresentar quem sabe um espelho amassado
Passados velozes
Futuros improváveis
Vou limpar minha boca
Na montanha-russa
Da nossa historia
Quem sabe a felicidade morasse ali...

Me diz um livro-romance
Um caderno soturno
Diz outras liturgias
Momentos maduros
Mágicos e herméticos guardados nos poros
Imundos, mudos, paralíticos
Vou cantar um hino de repente, para lhe sacramentar o corpo
Amanhecendo com outras almas
Em revelias poéticas na beira da estrada

Quem sabe a felicidade morasse em mim.

David Cejkinski

quinta-feira, 8 de abril de 2010


Se não existem palavras
Meios olhares
Pretos avisos
Maus presságios
Profecias morais
Revelias
Se não existe poesia
More em outra cidade

Se não existem amores
Outras possibilidades
Se a cabeça anda torta
Os passos aguados
Os olhos murchos, parcos, pastos, mantos.
Traços

Se não existem certezas
Bailados mecânicos
Semáforos-portos
Meninas piscinas
Prantos pacatos
Lisos problemas
Dance grudado no seu amado

Se não existem navalhas
Memórias de cana
Estradas falantes
Se não existem mirantes
Profecias declaradas
Encontros partidos
Junte tudo em um grito

Se não existem balões
Coloque asas nas orelhas
Mentiras no céu
Momentos calados
Da casa morta
Confissões limpadas no guardanapo

Se não existem muralhas
Abençoe os atrasos
Atire pra cima lantejoula mofada
Esfregue sua vida nos cantos do espaço
Com sorrisos cuspidos
Menos melados...

David Cejkinski

quinta-feira, 1 de abril de 2010


Se hoje senhor é dia de gloria
Minha pele reclama um vento mais seguro
Do ventre da mãe
Karma-nascimento
Hoje descobri a morte
Andando na avenida central
Aceitando na pele a incompreensão da vida
Chupando de palitinho na beira da praça
Com óculos escuros, pedindo carona para outras estradas.
Me mude, me toque, diga que me ama.
A sensibilidade é uma poesia que engana
Nostalgia
De rezas praticas
De monumentos, pausas, anseios, pesquisas sentidas.
Menos elaboradas
Hoje senhor é dia de gloria
Para esquecer outras encarnações
Se entregar para o deleite dos planetas
Confissões-humanazinhas
Na beira da orelha de Deus
Hoje senhor é dia de comprar a morte na papelaria
E pregar no mural do quarto
Ser outro horizonte

Não sei de outras possibilidades
Não sei de outras quadraturas e sinastrias
Outros borrões que irão surgir em sua pele...
Não sei de seu horóscopo-dia
Hoje é dia de gloria
Já que não entendemos muito sobre nós
David Cejkinski

quinta-feira, 4 de março de 2010

Para Stephanie Habibb

Preciso da intensidade rubra dos fios de telefone
Dos emaranhados de dores
Cruzando satélites-lagrimas
Amanhecendo em outros aeroportos
Preciso do seu perfume no meu vaso
Sua pele sob minha cama-coberta-de-teu-sexo
Dos balões vermelhos estourados na frente do espelho
Paixões caídas pelo chão do banheiro
Eu lhe deixei uma mensagem rabiscada no bidê azul:
Hoje-quero-teu-sorriso-para-o-nosso-almoço
Vou fotografar bem pertinho dos seus olhos
Nossas imperfeições de alma
Quero sexodoer em você
Ser um blues-lilas
Com um batom vermelho borrando suas palavras-de-Cecilia-Meireles
Depois manchando o meu corpo
Testando minha paciência afogada
Transbordando em cada canto da alma
Uma lenda nossa
Para marcar nossos dias, em teus seios.
Que me aconchego, mamo, apelo, e sou todos os romances.
Dos trágicos aos sublimes
Vou te vestir todas as manhãs
Para sentir na minha pele aquele seu gosto irresistível de sal

David Cejkinski