sábado, 20 de novembro de 2010


Para Ana Crista César onde quer que esteja

Havia uma carta atrás do espelho
Um relatório punk
First class, do you understand?

Um palco giratório
Gato preto em teus seios
Um anel fullgás
Borrando seu papel lilás
Um sentimento blue

...a canção na praia
Aquela poesia escrita na área
A brincadeira de se enroscar nas cortinas
Enquanto dormia
Outra razão
Um rasgo de mordida no colchão
Pequeno-caderno-de- gozo

Em teus pés
Um coração faroleiro
Em altar enfeitado para santo
Uma-tatuagem-em-mim
Quero sim
Um livro farto
Capaz de fino retrato
Um relatório punk
Diário, um mito
Explicando esse seu grito

Não fique irritado amor
Isso não é filosofia

David Cejkinski

domingo, 7 de novembro de 2010


Entre os passos do meu sapato

Trespasso meu corpo
De ultraleve
No meio de um dia-aspirina
Um bilhete-de-guardanapo
Abandonado em balcão de padaria
Intensidade, é noite
Por onde ando volante
De caminhão-doce
Sem amante

De outro prumo vou sem juízo
Um rumo metafísico
Verso de engano
Sentimento Latino na mão
Gesto dolorido
Um salto tamanho
Voz de soprano
Batendo no asfalto
Sem rede de proteção
Por que não?

David Cejkinski

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Depois da meia noite
A rosa dos ventos brotará em teus cabelos
Ela vai manchar sua pele de paixão cabreira
Virgem pronta para ser despedaçada
Por selvagem boca

Depois da meia noite
Os passos já não tem fronteira
Onde a pele rasga perdida de toda estribeira
Forte soco vai manchar historia inteira
Depois do gozo

Depois da meia noite
O lodo engole um vasto canto colossal
Pedras são atiradas neste carnaval
Um momento exato de ser poesia
Ou uma ilha

Depois da meia noite
Decido ou não se vou com roupa de bailado
Ou outro rosto neste meu noivado
Examinar toda minha vida, com despedida
Já sem saída nestes nossos olhos

David Cejkinski


domingo, 26 de setembro de 2010

A arma


Estendo os braços
Toco com as pontas de meu corpo-precipico
Esse lugar onde as ruas findam
As praças quebram
As noites evaporam
Os amores derretem
Você não tinha o direito de usar essa arma!

Os dias passam
Momentos degustados
Limpados em guardanapos
Nesse lugar onde as vontades calam
As pontes partem
As valsas escorregam
Você não tinha o direito de me apontar essa arma!

Com três momentos a queima-roupa
Com paredes cimentadas nas bocas
Era dezembro
Onde eu me perco
Bailo um tenso rodeio em despertar de outrora
Nesse lirismo-parto um desacordo nato!
Você não tem o direito de engatilhar a arma!

Passo-respiro-momento-e-fato
Faço um retrato nosso
Liso de desembaraço
Para estampar o café-da-manhã-burguesia
Mordo a carne de teus lábios
A pólvora desses nossos dias!
Na bamba janela canto
Triste valsa para dançar colado, ensangüentado no negro asfalto

David Cejkinski


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

As ruas vazias
Teu corpo um naufrágio
Precipício, estes teus olhos-semáforos
Na esquina sonhar
Atravessando suas ruas
No parapeito do prédio
Emolduro o teu córrego
Na meia sarjeta
Cólera e engarrafamento
E as ruas vazias
Meu jeito parado
A pele pelada
Meus beiços melados
Você melodia
Teatro, um conto santo-retrato
As ruas vazias
Meus olhos gozosos
Virilha-poesia
Teus salmos jocosos
No meio dos pelos
Meu jeito manso nos teus
Olhos
Minha boca arredia
Faz anos lunáticos
Uma cor perturbada
Borrando minha pele
E as ruas vazias
Minha voz de bandeira
Dançando valsa-besteira
Um jeito rouco de andar
Lilás, azul, manifesto
O horizonte mais perto
Lento, deslizo em teu monumento

No vazio do meu corpo

David Cejkinski



terça-feira, 7 de setembro de 2010

(Du Bocage)


Por essa fresta de noite vejo ondas festeiras
Minhas asas estão cortadas
Não satisfeito procuro uma ronda
Atiro num corpo que não se entrega
Velejo um momento de fulga na veia
Cidade-vermelha
Varanda-ladeira
Descasco uma estrada
Como-orgia
Dos livros marotos
Bocage-diz
Que vai pintar
Brutais vagões de desejo
Sol de Lisboa nos dedos tecendo
Os nossos passos varados momentos
De rompimento, vou a outro país
No telefone sussurre comigo no ouvido
Aquele amor-meretriz

David Cejkinski




quinta-feira, 19 de agosto de 2010



O que restou do sagrado eu amarrei no pulso feito fita-promessa
Eu joguei ao ar procissões metrificadas
Fui à busca de alvorada em liturgia
E só avistei desespero e agonia...
O que restou do sagrado eu amarrei no sexo o mau-olhado
Fiz outro manto de cristal-santificado
Já era hora de julgar a revelia
Uma folia, outro mote-ao-meio-dia
Você-suado-corpo-leite-derramado
Esfrega, esfrega e esvoaça
A reza-nossa-fonte arregaça
Essas nossas línguas-trapezistas
Nessa fita-queda-pouca-de-mentira
Minha boca busca rouca sua cria
Eu acarinho o estardalhaço do teu vinho
Risco teu peito com o batom-veludo-azul
E de novo caio naquele velho canto-blues...
Os teus vestidos estão rasgados pelo chão
Foram poemas que arranquei com minhas mãos

David Cejkinski