quarta-feira, 9 de julho de 2008


Na solidão os urbanos se divertem com os seus luminosos corações e outdoors de angustias.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Metrô

Blocos de pessoas cantavam ao entrarem empurradas no vagão,”Isso é transporte de louco" uma velha disse. Em frente o moço executivo conversava com sua namorada provavelmente também sua secretaria, estavam abraçados. "Eu fui condenada a doze e já cumpri cinco, Jandira também vai ser assim, tenho certeza mulher" reclamava a velha. Um rapaz pequeno se masturbava por de trás da moça gordinha que segurava um livro de hematologia e sorria, parecia gostar. Corpos apoiados em corpos, suor de gente, cinzentas caras. Cidade, cidade, cidade. Mesmo parados debaixo da terra os corpos continuavam vivos, espremidos e suados. Pessoas de cimento e água seguravam escritórios, lojas, industrias, paralisados no vagão. E no celular: chamada perdida congestionamento. Estávamos correndo contra o vento no deserto. A menina pequena que estava com a cara assustada do meu lado soava muito e parecia ter muita vontade de sair dali, por um momento fiquei com pena dela até ela começar a me empurrar e jogar meu corpo contra um negro com caras de poucos amigos que estava encostado na parede do trem. Em fim a próxima estação estacionou diante de nós, a menina saiu e ainda consegui a ver na plataforma, ela se agachou e se encolheu, ao que percebi ela ficou ali naquele lugar por mais um tempo. De novo areia escura e corpos apertados, sentia agora uma estranha sensação nos pés. A próxima estação era ponto de baldeação para as linhas de trens, costumava-se a sair sempre muita gente, me sentia animado pensando na possibilidade de sentar. Um pouco mais de areia escura e corpos apertados, de novo nova estação. A porta abriu, todos ficaram paralisados como bloco de cimento pré-moldado. Ar de estranhamento no trem durante uns dois segundos. “Eu quero sair, mas não consigo, meus pés não saem! Qual é o engraçadinho que grudou cola no meu tênis hein? Olha que eu to armada!” gritou a velha que falava da cadeia com a sua acompanhante má vestida. “È eu também não consigo tirar os pés do chão” falou o executivo olhando para sua possível secretaria. Agora o vagão inteiro gritava sucessivamente sobre a paralisia, menos eu que de tão desesperado fiquei quieto olhando para a senhora de cabelos branco sentada a minha frente e pensando em como sair daquele inferno, o negro mal encarado fazia força com as mãos no teto do trem para ver se conseguia se mover dali, de nada adiantou seu esforço e o seu braço fedia mais do que o rio Tietê quando chove. Começou um verdadeiro caos no vagão, mas se ouvia também gritos vindos de outros vagões. Por toda a plataforma ressoavam as reclamações, pessoas pedindo socorro, pessoas histéricas, crianças chorando e nada de o trem partir, ele também havia estacionado a uns três minutos acho, tempo de mais para o horário do rush.
Eu calado, minha garganta secará, nada fazia mover minha boca mesmo que o desespero e a vontade de gritar fossem grande. Muito barulho. Pessoas histéricas não conseguiam parar de gritar, a suposta secretaria do executivo estava em crise de choro, a velha da penitenciaria falava que para ela isso era perseguição ou coisa do governo, todos falavam, gritavam e reclamavam alguma coisa menos eu cada vez mais mudo e estático. Como se fosse ensaiado vários celulares vieram à mão para ligar e pedir alguma ajuda, eles também não funcionavam e o desespero dobrou no trem.

Não sei bem quanto tempo, mas acho que umas sete horas haviam se passado, agora o silencio era o maior vilão dos ouvidos e todo mundo parecia ter se conformado. Alguns já estavam pálidos, outros suavam frio e eu apenas olhava para a velha de cabelos branco, nada fazia o seu semblante mudar de expressão, achei estranho à expressão apática que ela sustentava no seu rosto durante àquelas horas, por nada ela se movia. Aquela pele cheia de ceratose, aqueles olhos cansados me fizeram não sei bem o motivo querer tocar em seu rosto, acho que lembrei da minha Vó, queria me sentir acolhido não sei. Meus braços não se moviam, fiz toda força mental e física que pude fazer e nada. Fiquei desesperado, agora sim eu queria gritar, precisava extravasar, porem não conseguia mover os lábios.
Eu já tinha perdido a noção de tempo, não ouvi mais nem um grito, reclamação ou mesmo barulho de qualquer movimento, nem mesmo de respiração.
Nunca pensei que mesmo depois de tanto tempo do resgate no metrô cada um de nós ia virar peça rara para uma exposição exótica na Europa.

David Cejkinski

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Corpo Partido

Ele desceu hoje as escadas do prédio com um desgosto peculiar de café da manhã amanhecido em seu paladar. Era outono, mas as pessoas estavam expostas na rua com uma sensação esquisita de fim de ano. A velha andança de sempre aos Sábados pela manhã em direção à sua aula de arte, gostava de se tornar artista uma vez por semana. No entanto algo lhe coçava os miolos naquele dia, as pessoas estavam vestidas de maneira sóbria de mais, mesmo que fosse outono, mesmo que o frio ensolarado tomasse conta da pele na manhã plena e calma de Maio. Percebeu que algo havia mudado enquanto dormia e não havia sido avisado.”Será alguém importante morreu? Será é um luto por algum desastre natural na China? Ou alguma guerra civil no Rio de Janeiro? Será que havia acontecido mais um Tsunami ou coisa parecida e ele não havia sido avisado?”, pensou freneticamente. Ta certo que ontem não ligou a televisão, ficou por horas digerindo um livro de filosofia qualquer que lhe havia causado náusea, tudo lhe fazia muito mal por aqueles tempos. Quando atravessava a rua em direção ao bar (certo de que lá ia se ouvir alguma novidade) avistou sua vizinha do quinto andar, sempre muito simpática, passou reto e nem lhe percebeu, ele estranhou por um momento e assustado se deparou que ela carregava em sua mão esquerda o seu olho direito, ficou estatelado no meio da rua quase foi atropelado por uma BMW preta que sustentava nos faróis grande seios de mulher.
Pensou que fosse sonho, um pesadelo, mas na tentativa infantil de se beliscar percebeu na pele que estava acordado e ele mais que nunca sentia o mundo.
Reparou com espanto e admiração as árvores, havia pintos secos e bocetas caídas no chão, por um momento achou interessante este novo cenário até sentir o cheiro horrível que estava na rua. Quando acabara de atravessar a pista parou de reparar nos frutos caídos das árvores. Subitamente sua orelha direita começou a coçar irritantemente, quanto mais ele coçava mais a comichão lhe invadia a orelha. Como quem peida baixinho para ninguém ouvir, assim foi discretamente ao chão em direção a um dos sexos secos na calçada, e escondendo na palma da mão começou agora com a ajuda de um falo seco a coçar violentamente sua orelha que agora já estava sangrando de tanto roçar. Não demorou um minuto e estava com o pinto seco na mão e a sua orelha em carne viva caída no asfalto, começou a gritar, mas não sentia dor, gritava por que não queria mais sentir o caos daquilo tudo, onde havia parado? O que havia acontecido com seu corpo, com as formas do mundo?
Ele ficou contemplando com certa desolação sua orelha no asfalto, a orelha lá jogada perto do bueiro, sozinha e abandonada por seu dono, por um momento ele pensou com alivio “bem ao menos uma esta inteira comigo”. Quando decidiu pegá-la para guardar de lembrança em uma conserva de vidro e colocá-la em lugar de mérito na estante de sua sala, um rapaz já sem o nariz e as duas orelhas passou atravessando rapidamente a rua e de um só golpe colocou a orelha na boca e passou a devorá-la com grande vontade, o rapaz saiu correndo para não ter que vomitar a orelha de volta ao seu dono. Ele achou de mais aquilo, como já não se basta aquele caos todo ainda haviam comido a sua orelha como um chiclete! Ficou irritadíssimo, começou a gritar “Aquele rapaz comeu minha orelha! Peguem ele, ele comeu minha orelha!”, porem os passantes eram indiferentes, andavam na rua como se fossem zumbis em passarela de moda. Sentiu alguém gritar nas suas costas, quando olhou reconheceu a moça que fica no balcão da padaria perto de sua casa, ela estava nua e se oferecia a cada pedestre: “Moço sou virgem, aproveita que minha boceta ainda não secou e coma ela, coma moço, por favor, coma!” Ninguém se prontificava a ajudar a pobre moça, ele realmente ficou comovido com a cena afinal ninguém merece morrer virgem e com a boceta seca caída no chão, que destino! “Antes sem uma orelha”, pensou e se sentiu privilegiado. Mas nada podia fazer, definitivamente ele não estava em condições emocionais para socorrer a menina.
Sem saber o que fazer, e sem saber para onde ir apenas continuou andando para ver o circo de corpos partidos no asfalto, Boch não era nada perto do que estava vendo. Mais a frente avistou um velho que sempre ficava na porta do banco a pedir esmolas para os que acabaram de sacar as suas pequenas fortunas nos caixas eletrônicos, ele era o único que parecia ainda ter todos os órgãos em dia, quando reparou, ele sustentava uma plaqueta de papelão onde ofertava para quem quisesse um pedaço de seu corpo por um terço do total de sua soma bancaria, ele não acreditou no que viu e passou a rir muito e pensou: “que velho safado, mas que velho esperto!”.

-Até o pau vovô, vende também a rola?
-Essa foi à única coisa que já vendi, também já não me serve mesmo.

O velho riu com os seus poucos dentes podres e mostrou o buraco que agora tinha entre as pernas. Ele achou esquisito só o velho estar intacto enquanto tantos corpos já estavam partidos nas calçadas e outros tantos pedaços brotavam em lugares inesperados como nas arvores, carros, vitrines, havia também pedaços avulsos no meio das paredes, nas paredes se encontravam principalmente estômagos, fígados e rins. “A natureza mesmo no caos tem sua poesia” ele pensou irônico quando viu um braço pendurado no semáforo.
O que mais lhe assustava é que as pessoas estavam apáticas e não pareciam ter reações a aquela confusão toda. Uns andavam sem braços, outros já sem pernas se arrastavam com o que podiam, se tinham braços usavam, se apenas o tronco do corpo: então apenas rolavam pelas ruas. E parecia que todas as pessoas estavam nas ruas, que tudo estava presente nas avenidas, nas marginais, nas estradas. Ele pensou que isso era uma forma de protesto à cidade, afinal ela devia ver o que seus habitantes haviam se tornado. Para ele era remota a possibilidade de estar acontecendo à mesma situação em lugares como o Amazonas, “No Amazonas as pessoas são felizes” decretou infantilmente, se sentiu confortado por pensar que em algum lugar a forma não havia se quebrado e os corpos ainda podiam ser humanos, verdadeiros e inteiros.
Sentou-se em um banco de uma praça que sempre passava correndo quando voltava do trabalho, ele sempre tinha muita pressa durante a semana “Será que segunda-feira vou trabalhar?”, murmurou irônico.
Agradou a idéia de agora viver assim em uma sociedade se é que se pode chamar aquilo de sociedade, bem ele pensou que agora vivia em uma espécie de sociedade Anarquista! Sentiu-se muito, muito chique por que agora faria o que queria e ninguém seria contra ele já que todos se resumiam a partes caídas no chão, ou humanos em decomposição. Por um momento achou que nada disso ia dar certo, foi lúcido ao refletir que tudo ia se tornar muito monótono cedo ou tarde. Bem a verdade ele já sabia que seu vazio havia dilatado todas as possibilidades de mudanças mesmo se o mundo e o universo inteiro mudasse, ele ia continuar com as velhas impossibilidades de sempre. Sempre as velhas esperanças e resultados frustrados, sentado na poltrona de sua sala em um domingo de feriado.
Quando se levantou do banco sua perna direita ficou, ele não ficou espantado só ficou um pouco mais melancólico do que já estava, ele já se entregava. Nunca perdia o sarcasmo: “Sempre quis ser Saci-Pererê” gritou enquanto pulava em uma só perna para todo mundo ouvir.O cenário caótico já não mais lhe causava espanto, só era novamente outono e ele como os corpos partidos começaram a secar.
Quis cantar uma canção de partida em homenagem a sua perna que havia ficado abandonada na praça, mas sentiu que cantar uma bossa nova, ou um blues ou até mesmo uma canção francesa sofrida só ia aumentar mais a sua melancolia. Os seus pulos de uma perna só o acompanhavam como uma minimalista trilha sonora de um filme de arte onde tudo se justifica em nome da estética. Sentiu-se perdido, não conseguia ver arte em nada, justo ele que era artista aos sábados, aos sábados estudava historia da arte e seus percursos herméticos, gostava de entender a vida através das formas e linguagens.
Mais a frente perto já da grande Avenida próxima a sua casa bateu um instante de raiva nele, como era possível agora ele estar nesta situação e rodeado de pessoas iguais ou piores como ele? Pouco menos de uma hora estava em sua casa, inteirinho tomando seu café amargo para sair correndo em direção às horas mais queridas da semana... Já não acreditava em Deus, se havia alguma duvida de sua existência agora ele já não duvidava. Nenhum ser esplendido ia cometer tal ironia com suas criaturas, ele pensou enquanto sentou na calçada em frente à igreja de estilo gótico perto da grande Avenida.Ficou contemplando curiosamente as estatuas que agora pareciam ter texturas reais: pele, cabelo, olhos, lábios e tudo mais... Ficou apaixonado pelos anjos, nunca havia visto um com pele, eles eram de uma perfeição sublime, mas para sua decepção as estatuas não se mexiam e nem respiravam, ao menos ao que parecia, ele estava sentado no chão muito cansado e dava muito trabalho se levantar com uma só perna para averiguar se as estatuas realmente tinham vida ou se apenas “vestiam” em sua carcaça órgãos humanos.
Ficou durante um tempo nessa contemplação, as ruas estavam cada vez mais cheias de pessoas a andar desesperadamente sem rumo em todas as direções, todas apáticas sem se comunicar ou discutir todo aquele caos, umas já em estados deploráveis como aquelas que já sem as duas pernas apenas rolavam ou se arrastavam no asfalto com a ajuda das duas mãos ou do tronco. Ele mesmo já não sentia vontade nenhuma de falar com ninguém, se sentiu aliviado em poder ficar quietinho esperando a hora de tudo aquilo se transformar em apenas um sonho ruim. Levantou-se e agora sim ia na direção à grande avenida que de longe já se via que estava muito, muito movimentada, conseguia estar mais cheia do que as ruas por onde passará.
Parecia um desfile de anomalias como em um daqueles filmes sensacionalistas Hollywoodianos que insistem prever o fim do mundo. Um cheiro podre estava em todo lugar, ele próprio fedia de mais, ele que sempre foi higiênico, sempre: até no Carnaval! Seu nariz começou a coçar, ele não se entregou fácil, mas não demorou e o viu no chão ao lado de uma mão que já estava em decomposição ao que parecia. Quando olhou ao redor viu com uma mistura de espanto e conformismo uma multidão se despedir de seus órgãos um a um, era como tirar a roupa no meio da rua porem o que se tirava não era apenas o tecido que cobria a pele. Por um instante bateu-lhe uma curiosidade de saber o que havia também por de baixo da pele, algo que lhe explicasse sua existência. Assim como uma criança que desmonta um telefone para saber como funciona e se decepciona ao ver que não existe ninguém lá dentro e que aquelas pecinhas todas não fazem o menor sentido, ficou decepcionado vendo no asfalto aqueles pedaços vermelhos e moles se espatifarem no chão como um balão cheio d’água. Chorou um pouco por não encontrar dentro do corpo o real motivo de sua existência, se despediu gradativamente de sua ultima orelha, de sua ultima perna, de seus dois braços, de seus órgãos, tudo foi abandonando o corpo que agora se resumia a um tronco com uma cabeça a se arrastar no asfalto. A pedra agredia sua pele e lhe fazia sangrar cada vez mais...Ele não sentia nenhuma dor, ele ainda se sentia inexplicavelmente inteiro mesmo quando todo o seu corpo era ausente de órgãos, mesmo quando sua cabeça já praticamente vazia foi rolar e parar ao lado de um pneu de carro, algo nele era de total terror, ele ainda sentia o mundo em sua terrível condição. O que mais lhe desagradava era que mesmo sem corpo algum, mesmo apenas sendo uma carcaça que já foi habitada, ainda assim senhores! ainda assim ele sentia aquele vazio imenso dilatando tudo o que podia se chamar de corpo presente naquele momento.

David Cejkinski

terça-feira, 3 de junho de 2008

ENSAIO SOBRE A PARTIDA

È necessário por estes tempos em que vivo falar explicitamente sobre o corpo, o abandono, a ausência e a partida. Partida pode significar: ir embora, dividir, começar algo (dar partida), de partida vem à palavra parir, quebrar, o abandono e a ausência são sentimentos intrínsecos nesta palavra, já o corpo é uma organização como o corpo humano, o corpo docente de uma escola, o corpo médico de um hospital, mas o corpo pode ser também uma organização de idéias, “um corpo comunicativo”.Estes estados vêm presentes em mim a muito, muito tempo. Escrevo já sem muito notar no meu velho e querido blog (www.meucoracaooutono.zip.net), sobre corpo e partida, cada vez mais estes assuntos vem à tona em mim e isso não é reflexo de um momento de tristeza, depressão ou qualquer outra coisa que possa induzir a escrever sobre esses temas desagradáveis e doloridos, porem urgente nesses dias em São Paulo e acredito que no Brasil e no Mundo. Posso falar do que vejo e sinto, essa é a única coisa que sei fazer. Não sou um teórico, ou um filosofo, ou qualquer doutor em alguma coisa, eu sou urgente e isso me leva para a palavra, cada dia mais. A busca de um estética sincera ao leitor, ao encontro de uma linguagem própria foi que cheguei ao corpo fragmentado, a um corpo que comunica o todo de mim, ou apenas alguma parte mais urgente do todo. Isso quer dizer que cada vez mais vejo pessoas e situações que gritam desesperadamente por algum tipo de relato, não é possível ficar calado, infelizmente já não mais é possível.... Escrever é um exercício difícil, doloroso e que exige muita paciência e tempo, coisas que eu estou apreendendo a exercitar. Mas cada vez mais é essencial a escrita para o mergulho em mim (por mais clichê que isso possa parecer). È aí que entra o “todo de mim”, essa é a minha necessidade de narrativa, ou seja, de descoberta, de descamação. Fazer a palavra e lapidar um poema ou um conto é para mim uma forma de renovação da pele, renascimento de um corpo vivo. Essa fragmentação, essa partida vem do desespero do não olhar, não perceber, não sentir, cada vez mais presente em uma sociedade apática consigo mesmo e com qualquer problemática que a envolve. São tantos os exemplos que seria por de mais jornalístico ficar narrando este tipo de situação, sei que o leitor me entende é só pegar um ônibus em São Paulo e perceber o abandono absurdo que as pessoas tem para com suas vidas, com suas historias, com seus valores. Uma sociedade prostituída é o que cada vez mais fica obvio para mim, e o desesperador é que esse é um comercio velado, é uma forma discreta de silenciar o todo para o suposto beneficio de alguns. Acontece que estes alguns também já há muito estão abandonados, ausentes, enganados com a ilusão de viver uma vida boa, uma vida onde se tem controle sobre sua historia, sobre o seu corpo e sua alma. Não quero e nem estou sendo político, vejo isso nas pequenas relações.
O todo é cada dia mais individualista, por conseqüência o individuo esta cada dia mais inserido em um jogo de cabra cega onde apenas poucos conseguem enxergar o que acontece com o cidadão, o cidadão é enganado por sua própria individualidade que reflete negativamente no todo. Para um exemplo mais claro há anos atrás nós brasileiros lutávamos ou alguns lutavam para o fim ou a permanência de uma ditadura, sabíamos onde era o alvo e assim cada um dependendo de seu ponto de vista se colocaria de forma determinada contra o seu algoz seja eles os militares, seja eles os comunistas. Depois da morte dessa era idealista o que sobrou ao homem a partir da década de 80 no Brasil e acredito no mundo, foi à morte de uma identidade, uma sociedade que começava a se organizar para viver cada dia mais a si mesmo. Com a globalização e toda a explosão econômica a sociedade de consumo passou a favorecer este comportamento individual, mudando então gradativamente a postura do homem até chegar a um ponto onde já não temos mais a consciência dessa mudança e então não conseguimos lutar para qualquer mudança positiva em nós, ou não, obviamente todos temos o direito de escolher a sua personalidade e a historia que quer viver. O que fazer para que ao menos o homem contemporâneo se depare com essa guerra silenciosa que o corrompe cada vez mais? O meu grito vem através da arte.
E assim vejo a fragmentação da vida, assim percebo que as pessoas cada vez mais usam o mundo, o dinheiro, as pessoas e os seus corpos para obter um momentâneo instante de prazer ou vantagem que logo acaba. Então posso dizer que a nossa sociedade é cada vez mais movida pelo corpo e por sua individualidade e isso não só tem haver com sexo e relacionamento, também, porem o que falo é que o cidadão em geral se comporta cada dia mais de maneira instintiva e animal. A tecnologia, os grandes avanços científicos apenas camuflam uma aparente evolução intelectual de nossa raça, sim pode ser que tecnologicamente estamos cada dia mais evoluídos, mas e quanto aos nossos comportamentos? Quanto as nossas atitudes perante o mundo, a sociedade, ao outro?
Pode isso parecer didático, mas é isso que me vem à pele e me é urgente cada dia mais. Eu preciso descamar, jogar fora esse corpo de ausência, abandono e partida que me vem à tona seja na minha percepção do que eu vivo, seja na percepção dos meus dramas, da minha narrativa. Por isso Corpo Partido, por que é preciso ser camaleão para sobreviver.

David Cejkinski

FORA DO CORPO

A ideia é que a muito tempo ja escrevo sobre corpo, e ah muito tempo não sabia como ou qual o conceito de um novo blog, então abaixo nada mais é que textos postados no http://www.meucoracaooutono.zip.net/ porém pertencem a este mundo, a este blog.

SALMO

Eu vou te reformar
Para sempre na linguagem humana
É preciso poetizar para não rezar
Não se entregar a dogmas
Em uma dispersiva tentativa de êxodo
Onde nunca e a qualquer momento se lança uma tentativa de pureza
Onde o mar aberto não te encontra
Onde qualquer dia o jogo ganha forma
Já que nas ilhas não se tem fuga a um lugar utopico.
É preciso quebrar
Escandalizar
E doer
Em qualquer tentativa de espera
Para lá da linha do equador
Por onde a poesia passa precisa e correta, onde me traz amor...
Esse vazio me rompe o corpo
Essa lança de mil dedos me rasga o ventre
Para lá, em cima das historias tristes.
Por onde passa a verdade
E qualquer poesia mancha de sangue todas as vontades
Grite e não se deixe
Lamba com meticulosidade as lanças livres
Que furam o olho de qualquer mesmice
Te entregues
Em qualquer sala de partida
Não minta, a poesia não suporta mentiras.
Na geografia de um lugar comum
Nenhuma língua santa canta um verso de lamento
Te entregues, depois da via Láctea.
Depois do corpo-santo
Existe uma mão, um acalanto.
Que precisamente te pegas o corpo nu
Não deixe de contar os traços
Rever os versos que vomita nessa pia
Fazer dos teus embaraços
Sua reza e sua poesia

David Cejkinski

ESTIVE MARCADO COM...

Estive marcado com literatura
Sobre o teto de giz uma nobre pintura que refletia a moeda estranha em meu nariz...
Dançava pelas ruas um estranho Rimbaud de meias férulas
Ah, quem ousa bailar poesia em esquecido quintal?
Mar de tropas cavalgando em destino certo o meu parado varal...
Sobre um tanto outono
Em dias quebrados no chão
Desfilava assim o senhor Van Gogh com sua orelha na mão
Mas de tanta terra que transborda entre as veias e deságua o meu ar de arte...
Vestir o corpo de literatura, como em uma nobre pintura Pop Art.
Vanguardista de museu.
Onde não se cobra caixinha por guardar o que é seu
Cubra de tédio o pátio que te faz metódico
Descubra o teatro que descortina a mascara...
Quem saberá assim de sua nobre pirraça?
È Roma que diluí o grego canto final
Mas já estive em Rio que é de Janeiro a Dezembro o meu Brasil...
Lá se come samba na praia
Lá se lancha bala na testa
Eu que gostei de passar na Sapucaí em dia normal...
Tão fútil como engarrafamento em final de feriado prolongado
Como sou mau amado por entre as frestas de Frida Khalo...
Um dia me calo, e te faço um parto digno de um Arrabal.
Quem te disse esse marco final?
Nada silencia o silício de nossa poesia
Para que Machado de Assis? O grande chato!
O realismo é um corte no olho que destrói os fracos
Um dia desses marquei uma valsa com Artaud
Não veio, disse que não conseguia parar de gritar com Anton Tchecov, e eu fiquei meio ameno...
Nesse meio de vida
Qualquer dia desses recebo de presente um frustrante Picasso...
Nem Monet me consola nesse desembaraço
Esperando Artaud no Fran’s Café?
Nada mais obvio, talvez um cigarro acalme lento o Pollack do meu lamento...
E eu que pensava ser bonito ser surrealista...
Eu que pensava algumas vezes pensava e parava de me esforçar...
É chato tentar algo esplendido
È literal o marasmo de pedra
É fantástico como cada milícia destrói sua delicias...
E engraçado é dançar aos sábados
Com gente que nunca viu
Eu já me quis em Paris...
Hoje navego em outro rio...

David Cejkinski