quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

È preciso arar o corpo
Sovar o pão
Arrumar os copos
Beber o calendário
Enfileirar o esquecimento
Pregá-los nas paredes
E encarar
Viver as pequenas lembranças
Se jogar de balão
Ser nuvem esplanada
Ser(tão)
Qualquer coisa
Um novo horizonte...
Em véspera de fim de ano

David Cejkinski

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tão importante
Abrir a pele
Mexer nas vísceras
Ser sempre tão...

Quebrar as vértebras
Varrer os cantos
De silencio
Olhar o céu...
Ser sempre tão...

Arrumar livros na estante
Desesperos velados
Enfileirados
Esse jeito displicente de amar
Ser sempre tão...

Um verbo a rodar na boca
Caindo no ar
Essa coisa esquecida...
Ser sempre tão...

David Cejkinski

domingo, 28 de novembro de 2010

Confissão

To trazendo na mala uma coleção de paisagem
Para assistir feito cinema, com óculos escuros na cabeça
Desejo é filme
Paisagem que se vê pra sempre na pele
Minhas mãos estão paradas em sinfonia torta
Bernstein cansado
Maestro equivocado
Imagens perdidas espalhadas pelo chão do quarto
Um dia de sol encontrado nos pelos
Uma memória de açúcar
Aquela imagem cítrica nas dobras da pele
Em panela de algodão doce, festa-de-criança-menino
Quando um sorriso era mais simples
Amar as pequenas coisas
Ver as pequenas vitórias, chorar histericamente nas pequenas perdas
Vem, que eu quero abrir essa mala e espalhar pela sala
Sorrisos, mortes, dias de parede, poemas engolidos, doenças sintomáticas
Para sambar depois
Um dia faceiro
Encontrado nos cabelos
Depois da corrida no parque
Ser feliz não é fácil...

Em um dia-diário
Essa confissão de bandido
Para colorir o silencio
Do carrosel-calendário

David Cejkinski

sábado, 20 de novembro de 2010


Para Ana Crista César onde quer que esteja

Havia uma carta atrás do espelho
Um relatório punk
First class, do you understand?

Um palco giratório
Gato preto em teus seios
Um anel fullgás
Borrando seu papel lilás
Um sentimento blue

...a canção na praia
Aquela poesia escrita na área
A brincadeira de se enroscar nas cortinas
Enquanto dormia
Outra razão
Um rasgo de mordida no colchão
Pequeno-caderno-de- gozo

Em teus pés
Um coração faroleiro
Em altar enfeitado para santo
Uma-tatuagem-em-mim
Quero sim
Um livro farto
Capaz de fino retrato
Um relatório punk
Diário, um mito
Explicando esse seu grito

Não fique irritado amor
Isso não é filosofia

David Cejkinski

domingo, 7 de novembro de 2010


Entre os passos do meu sapato

Trespasso meu corpo
De ultraleve
No meio de um dia-aspirina
Um bilhete-de-guardanapo
Abandonado em balcão de padaria
Intensidade, é noite
Por onde ando volante
De caminhão-doce
Sem amante

De outro prumo vou sem juízo
Um rumo metafísico
Verso de engano
Sentimento Latino na mão
Gesto dolorido
Um salto tamanho
Voz de soprano
Batendo no asfalto
Sem rede de proteção
Por que não?

David Cejkinski

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Depois da meia noite
A rosa dos ventos brotará em teus cabelos
Ela vai manchar sua pele de paixão cabreira
Virgem pronta para ser despedaçada
Por selvagem boca

Depois da meia noite
Os passos já não tem fronteira
Onde a pele rasga perdida de toda estribeira
Forte soco vai manchar historia inteira
Depois do gozo

Depois da meia noite
O lodo engole um vasto canto colossal
Pedras são atiradas neste carnaval
Um momento exato de ser poesia
Ou uma ilha

Depois da meia noite
Decido ou não se vou com roupa de bailado
Ou outro rosto neste meu noivado
Examinar toda minha vida, com despedida
Já sem saída nestes nossos olhos

David Cejkinski


domingo, 26 de setembro de 2010

A arma


Estendo os braços
Toco com as pontas de meu corpo-precipico
Esse lugar onde as ruas findam
As praças quebram
As noites evaporam
Os amores derretem
Você não tinha o direito de usar essa arma!

Os dias passam
Momentos degustados
Limpados em guardanapos
Nesse lugar onde as vontades calam
As pontes partem
As valsas escorregam
Você não tinha o direito de me apontar essa arma!

Com três momentos a queima-roupa
Com paredes cimentadas nas bocas
Era dezembro
Onde eu me perco
Bailo um tenso rodeio em despertar de outrora
Nesse lirismo-parto um desacordo nato!
Você não tem o direito de engatilhar a arma!

Passo-respiro-momento-e-fato
Faço um retrato nosso
Liso de desembaraço
Para estampar o café-da-manhã-burguesia
Mordo a carne de teus lábios
A pólvora desses nossos dias!
Na bamba janela canto
Triste valsa para dançar colado, ensangüentado no negro asfalto

David Cejkinski